Energias
Renováveis poderiam ser a principal fonte de energia do mundo se alguém
conseguisse resolver os problemas de armazenagem – como armazenar grandes
quantidades de energia, com baixo custo, em grande escala?
Baterias são caras
demais e não duram o suficiente. Bombas hidráulicas são baratas, mas
impraticáveis na maioria dos lugares. O armazenamento térmico é promissor, mas
ainda é muito caro ou difícil de uso em escala. O ar comprimido é barato e
escalável, mas ainda não é eficiente o bastante (apesar de a LightSail, uma
nova empresa apoiada por Peter Thiel, Vinold Khosla e Bill Gates, esperar mudar
isso). E quanto a volantes inerciais? A principal empresa, Beacon Power, faliu
em 2011.
Mas os volantes
inerciais podem estar ganhando uma vida nova.
O inventor Bill
Gray, do Vale do Silício, tem um novo projeto que forneceria armazenagem e
distribuição altamente escaláveis por aproximadamente US$1,333 por kilowatt, o
que o tornaria competitivo com bombas hidráulicas e ar comprimido.
Com uma eficiência
de mais de 80%, ela rivalizaria com as melhores alternativas de armazenagem, e
viria com 10 anos de garantia. E ainda seria o complemento perfeito para uma
casa fora da rede elétrica com um sistema solar fotovoltaico (FV), capaz de ser
completamente carregado em cinco horas – dentro do tempo de carga da maioria
dos sistemas FV – e armazenar 15 kilowatt-horas de energia, o suficiente para
manter uma casa modesta funcionando do por ao nascer do sol.
Gray chama sua
invenção de Velkess (acrônimo em inglês para “Sistema muito grande de
armazenagem de energia cinética”). Atualmente ele está levantando dinheiro para
o protótipo em uma campanha no Kickstarter.
O Velkess otimiza
volantes inerciais tradicionais com uma melhor administração da “oscilação”
natural de uma massa giratória.
Volantes
tradicionais são muito caros porque engenheiros alinham o eixo natural de sua
rotação com a rotação desejada do gerador. Assim, eles estão sempre lutando
para minimizar a oscilação natural do volante usando imãs e rolamentos bastante
caros, engenharia de alta precisão e materiais como fibra de carbono de alta
qualidade ou aço rígido. O rotor da Beacon para armazenagem na rede elétrica
custava incríveis US$3 milhões por megawatt-hora.
Em vez de tentar
enfrentar a oscilação, Gray decidiu redirecioná-la suspendendo a roda em um
cardan – o mesmo conceito que faz um giroscópio funcionar.
O cardan do Velkess
é assimétrico, então os dois eixos de rotação – o eixo do volante que conduz o
motor DC sem escovas – não ficam no mesmo plano, e tem períodos diferentes de
frequência. Isso reduz os efeitos de ressonância que tornam os rotores
tradicionais difíceis de controlar (uma perturbação ressonante em um dos planos
pode se intensificar até que o dispositivo se despedace).
Com o cardan, a
ressonância em um plano é traduzida no outro, que não ressona na mesma
frequência. Dessa forma, só são necessárias tolerâncias bem grandes – cerca de
1/16 de polegada [NT: Aproximadamente 0,158 centímetros] – para construir o
dispositivo.
Gray se baseou em um
trabalho pioneiro do engenheiro mecânico John Vance, professor aposentado da
Texas A&M University, que conduziu pesquisas extensas com volantes
inerciais, vibrações de máquinas e dinâmica de rotores. Gray também reduziu o
custo dos materiais. Em vez de produzir o volante a partir de fibra de carbono
ou aço, ele usou fibra de vidro do tipo “e-glass” – o mesmo material usado em
portas de box de chuveiro e varas de pesca. Como esse é um material muito mais
flexível, o volante de fibra de vidro tende a se curvar e oscilar muito mais
que aço ou fibra de carbono quando sua velocidade de giro muda.
O foco de Gray em
reduzir os custos de capital da armazenagem, enquanto outros produtores de
volantes inerciais se concentraram em aumentar a densidade e gerar capacidade,
parece ter dado certo. De acordo com Gray, o Velkess pode armazenar
eletricidade por US$300 mil por megawatt-hora, ou cerca de um décimo do custo
da unidade da Beacon. “Estou feliz em ver esse conceito recebendo publicidade,
já que acredito que ele seja promissor”, declara Vance sobre o Velkess.
O projeto de Gray
também torna mais fácil controlar uma possível falha de suas partes mais
críticas: o volante em si e os rolamentos. Como o dispositivo é um feixe de
milhares de fibras, se uma delas se partir, ela simplesmente sairá do feixe em
vez de estressar diretamente o resto do volante e fazê-lo se partir. O volante
simplesmente “arremessaria” material leve.
Como rolamento, o
Velkess usa rolamentos esféricos de “contato angular híbrido de cerâmica”
(nitreto de silício) correndo em um trilho de aço inoxidável, onde tanto os
rolamentos quanto a carga axial ficam flutuando sobre imãs. Se os rolamentos
começarem a falhar, o calor gerado por eles é logo identificado por um simples
sensor de temperatura.
Qualquer tipo de
falha poderia ser facilmente detectado muito antes de um evento catastrófico,
permitindo que o dispositivo emita um alerta e dispare o desligamento. Em um
desligamento fora da rede elétrica, o dispositivo soltaria ar quente até parar
de girar – aproximadamente o equivalente a um secador de cabelo de 1500 watts
funcionando por 10 horas. Em uma aplicação conectada à rede, ele poderia
simplesmente descarregar a energia na rede.
Todo o dispositivo
fica contido em uma caixa de aço selada, com aproximadamente as mesmas
dimensões de uma geladeira doméstica, apenas um pouco mais baixa. O volante em
si tem cerca de 66 por 66 centímetros de altura e diâmetro, e pesa cerca de
340kg.
Ele será otimizado
para fornecer até três kilovolt-amperes de energia contínua a 27 amperes, mas
pode lidar com “bursts” energéticos que ocorrem quando aparelhos de alto
consumo, como bombas d’água e serras circulares, são ativadas. A unidade
poderia se descarregar em qualquer frequência até o volante chegar em sua
velocidade ‘totalmente descarregada’ de 9000 revoluções por minuto.
Inicialmente, Gray
pretende visar o mercado residencial de 48 volts fora da rede elétrica, onde o
Velkess seria um substituto para sistemas típicos de baterias de 48 volts.
Depois disso viriam o mercado residencial e o de pequenos estabelecimentos
comerciais de 240 volts, em que o Velkess poderia substituir sistemas FV
conectados à rede elétrica quando a rede cair. Por fim, ele pretende chegar ao
mercado solar de 600 volts.
O Velkess poderia
ter sucesso onde o Beacon fracassou em vários aspectos. O último dispositivo,
como muitos de seus competidores, só conseguia descarregar grandes quantidades
de energia por curtos períodos, enquanto o produto de Gray faria o oposto: ele
poderia descarregar tão lentamente quanto necessário durante horas. E enquanto
o sistema da Beacon era tão caro que só fazia sentido para aplicações
industriais, o de Gray seria barato o suficiente para fazer sentido econômico
no mercado residencial e de pequenos comércios.
Além disso, o
Velkess satisfaz o último fator crucial para o armazenamento elétrico – a
escala. Várias unidades podem ser ligadas juntas em paralelo.
De acordo com um analista
da Lux Research, com sede em Boston, dispositivos de armazenagem de energia
poderiam ser um mercado global de US$31,5 bilhões em 2017. Se o protótipo do
Velkess puder ser produzido pelo preço e desempenho anunciados, ele poderia
ganhar uma grande parte desse mercado, e resolver o problema da intermitência
de renováveis de uma vez por todas.
Fonte
http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/novo_dispositivo_podera_aperfeicoar_a_armazenagem_de_energia.html

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