O computador quântico poderá deixar de ser um sonho e se
tornar realidade nos próximos 10 anos. A expectativa é que isso traga uma
drástica redução no tempo de processamento, já que algoritmos quânticos
oferecem soluções mais eficientes para certas tarefas computacionais do que
quaisquer algoritmos clássicos correspondentes.
Até agora, acreditava-se que a chave da computação quântica
eram as correlações entre dois ou mais sistemas. Exemplo de correlação quântica
é o processo de “emaranhamento”, que ocorre quando pares ou grupos de
partículas são gerados ou interagem de tal maneira que o estado quântico de
cada partícula não pode ser descrito independentemente, já que depende do conjunto
(Para mais informações veja agencia.fapesp.br/20553/).
Um estudo recente mostrou, no entanto, que mesmo um sistema
quântico isolado, ou seja, sem correlações com outros sistemas, é suficiente
para implementar um algoritmo quântico mais rápido do que o seu análogo
clássico.
Artigo descrevendo o estudo foi publicado no início de
outubro deste ano na revista Scientific Reports, do grupo Nature: Computational
speed-up with a single qudit.
O trabalho, ao mesmo tempo teórico e experimental, partiu de
uma ideia apresentada pelo físico Mehmet Zafer Gedik, da Sabancı Üniversitesi,
de Istambul, Turquia. E foi realizado mediante colaboração entre pesquisadores
turcos e brasileiros.
Felipe Fernandes Fanchini, da Faculdade de Ciências da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Bauru, é um dos
signatários do artigo. Sua participação no estudo se deu no âmbito do projeto
Controle quântico em sistemas dissipativos, apoiado pela FAPESP.
“Este trabalho traz uma importante contribuição para o debate
sobre qual é o recurso responsável pelo poder de processamento superior dos
computadores quânticos”, disse Fanchini à Agência FAPESP.
“Partindo da ideia de Gedik, realizamos no Brasil um
experimento, utilizando o sistema de ressonância magnética nuclear (RMN) da
Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos. Houve, então, a colaboração de
pesquisadores de três universidades: Sabanci, Unesp e USP. E demonstramos que
um circuito quântico dotado de um único sistema físico, com três ou mais níveis
de energia, pode determinar a paridade de uma permutação numérica avaliando
apenas uma vez a função. Isso é impensável em um protocolo clássico.”
Segundo Fanchini, o que Gedik propôs foi um algoritmo
quântico muito simples que, basicamente, determina a paridade de uma sequência.
O conceito de paridade é utilizado para informar se uma
sequência está em determinada ordem ou não. Por exemplo, se tomarmos os
algarismos 1, 2 e 3 e estabelecermos que a sequência 1- 2-3 está em ordem, as
sequências 2-3-1 e 3-1-2, resultantes de permutações cíclicas dos algarismos,
estarão na mesma ordem.
Isso é fácil de entender se imaginarmos os algarismos
dispostos em uma circunferência. Dada a primeira sequência, basta girar uma vez
em um sentido para obter a sequência seguinte, e girar mais uma vez para obter
a outra.
Porém, as sequências 1-3-2, 3-2-1 e 2-1-3 necessitam, para
serem criadas, de permutações acíclicas.
Então, se convencionarmos que as três primeiras sequências
são “pares”, as outras três serão “ímpares”.
“Em termos clássicos, a observação de um único algarismo, ou
seja uma única medida, não permite dizer se a sequência é par ou ímpar. Para
isso, é preciso realizar ao menos duas observações. O que Gedik demonstrou foi
que, em termos quânticos, uma única medida é suficiente para determinar a
paridade. Por isso, o algoritmo quântico é mais rápido do que qualquer
equivalente clássico. E esse algoritmo pode ser concretizado por meio de uma
única partícula. O que significa que sua eficiência não depende de nenhum tipo
de correlação quântica”, informou Fanchini.
O algoritmo em pauta não diz qual é a sequência. Mas informa
se ela é par ou ímpar. Isso só é possível quando existem três ou mais níveis.
Porque, havendo apenas dois níveis, algo do tipo 1-2 ou 2-1, não é possível
definir uma sequência par ou ímpar.
“Nos últimos tempos, a comunidade voltada para a computação
quântica vem explorando um conceito-chave da teoria quântica, que é o conceito
de ‘contextualidade’. Como a ‘contextualidade’ também só opera a partir de três
ou mais níveis, suspeitamos que ela possa estar por trás da eficácia de nosso
algoritmo”, acrescentou o pesquisador.
Conceito de contextulidade
“O conceito de ‘contextualidade’ pode ser melhor entendido
comparando-se as ideias de mensuração da física clássica e da física quântica.
Na física clássica, supõe-se que a mensuração nada mais faça do que desvelar
características previamente possuídas pelo sistema que está sendo medido. Por
exemplo, um determinado comprimento ou uma determinada massa. Já na física
quântica, o resultado da mensuração não depende apenas da característica que
está sendo medida, mas também de como foi organizada a mensuração, e de todas
as mensurações anteriores. Ou seja, o resultado depende do contexto do
experimento. E a ‘contextualidade’ é a grandeza que descreve esse contexto”,
explicou Fanchini.
Na história da física, a “contextualidade” foi reconhecida
como uma característica necessária da teoria quântica por meio do famoso
Teorema de Bell.
Segundo esse teorema, publicado em 1964 pelo físico irlandês
John Stewart Bell (1928 – 1990), nenhuma teoria física baseada em variáveis
locais pode reproduzir todas as predições da mecânica quântica. Em outras
palavras, os fenômenos físicos não podem ser descritos em termos estritamente
locais, uma vez que expressam a totalidade.
“É importante frisar que em outro artigo [Contextuality
supplies the ‘magic’ for quantum computation] publicado na Nature em junho de
2014, aponta a contextualidade como a possível fonte do poder da computação
quântica.
Nosso estudo vai no mesmo sentido, apresentando um algoritmo
concreto e mais eficiente do que qualquer um jamais imaginável nos moldes
clássicos.”
Fonte: Exame.

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