
Santiago (Chile), 10 jan (EFE).- Nas condições
extremas das geleiras da Antártidavivem
bactérias capazes de sintetizar nanopartículas fluorescentes que podem ser
utilizadas para marcar células cancerígenas e
rastrear diferentes tipos da doença.
Essas nanopartículas são geradas no interior de
micro-organismos muito resistentes a condições extremas, como alta exposição
aos raios ultravioleta, a falta de nutrientes e as baixas temperaturas da
Geleira União, na Antártida profunda, segundo o pesquisador Luis Saona, do
Centro de Bioinformática e Biologia Integrativa (CBIB) da Universidade Andrés
Bello (UNAB) e da Universidad de Chile.
Saona é um dos 15 integrantes da expedição
chilena que está na Estação Polar Científica da Antártida, operada em conjunto
pelo Instituto Nacional Antártico do Chile (Inach) e as forças armadas.
Até agora, as nanopartículas eram criadas
principalmente através de processos químicos que envolviam metais pesados como
cádmio, telúrio e mercúrio, o que aumentava sua toxicidade e prejudicava a
aplicação biológica.
É por isso que, há alguns anos, o Laboratório
de Bionanotecnologia e Microbiologia comandado por Pérez-Donoso, por meio de
pesquisas desenvolvidas por cientistas como Saona, começaram a se concentrar em
nanopartículas de cobre, um mineral menos tóxico para o organismo e que,
através de um método patenteado recentemente, é capaz de criar nanopartículas
com grande poder de emissão de luz.
"O desafio atualmente é sintetizar
nanopartículas de forma natural, por meio de uso de micro-organismos capazes de
gerar essas nanoestruturas na presença do cobre", explicou o cientista.
A graça de trabalhar com esse tipo de bactéria
que vive em ambientes extremos, segundo Saona, é que, ao submetê-las ao
tratamento de estresse, elas são capazes de criar essas nanopartículas
fluorescentes buscadas pelos pesquisadores.
O cobre é o único elemento externo que os
cientistas acrescentam para criar essas nanopartículas que, ao serem introduzidas
em células cancerígenas, podem identificar seu movimento dentro do organismo e
ajudar a entender como elas se expandem para outros órgãos.
"O que estamos estudando é a possibilidade
desses micro-organismos antárticos criarem em seu interior as nanopartículas
fluorescentes, cuja toxicidade é muito menor, pois estão cobertas com proteínas
e moléculas orgânicas próprias de um organismo vivo", detalhou.
Além de testar as nanopartículas de cobre em
tecido celular, os cientistas trabalham para utilizá-las em protótipos de
células solares para construir painéis baseados em cobre para gerar energia a
partir da luz do sol.
"Essas nanopartículas conseguem coletar
fótons: recebem a luz do sol, obtêm energia e emitem fluorescência. O que
fazemos em uma célula solar é pegar esse fluxo de elétrons e tentar
transformá-lo em corrente elétrica ao invés de fluorescência", afirmou
Saona.
O objetivo das pesquisas desenvolvidas na
Universidade Andrés Bello, que ainda estão em uma fase preliminar de
desenvolvimento, é substituir os materiais baseados no silício por um processo
"muito mais ecológico".
"Por enquanto, estamos em uma etapa
embrionária, mas há muitos estudos que garantem que as células solares de
quarta geração utilizarão nanopartículas desse tipo ou componentes
biológicos", destacou o pesquisador.
Com o objetivo de avançar nas pesquisas, Saona
ficou por duas semanas na Geleira União, situada a apenas mil quilômetros do
polo sul, para coletar amostras que contivessem esses micro-organismos que
depois seriam isolados nos laboratórios.
Além de representar um avanço no tratamento
do câncer e
na criação de energias renováveis, essa tecnologia "totalmente
chilena" poderia dar valor agregado a um produto nacional que até o
momento só é vendido em estado bruto.
"O Chile é há anos o principal exportador
de cobre do mundo e, no entanto, fomos incapazes como país de fazer negócio com
ele em um estado que não seja o natural", criticou Saona.
"Isso tem que mudar e tanto esse projeto
como outros que desenvolvemos no Laboratório de Bionanotecnologia e
Microbiologia da UNAB apontam nessa direção, dar valor agregado a minerais de
importância para nosso país, como o cobre e o lítio", concluiu. EFE
Fonte:
Exame.
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