
O mecanismo usado pelo
vírus do herpes (HSV-1) para escapar do núcleo da célula hospedeira após se
replicar foi descrito em dois artigos publicados
na revista Cell.
A estratégia consiste
em secretar duas proteínas – a pUL31 e a pUL34 – que interagem formando uma
vesícula. Esse complexo proteico recobre o vírus e o transporta para fora do
núcleo, permitindo que ele infecte uma nova célula e a doença progrida.
“Conhecer esse
mecanismo abre uma porta para novos estudos voltados a descobrir se há outros
tipos de vírus e outras moléculas que são transportados para fora do núcleo da
mesma maneira. Além disso, permite pensar em compostos capazes de inibir a
síntese dessas proteínas e, desta forma, impedir o escape viral e o avanço da
infecção”, afirmou a brasileira Juliana Cheleski Wiggers, integrante da equipe
internacional de pesquisadores liderada por Kay Grünewald, na Universidade de
Oxford, no Reino Unido.
Com apoio da FAPESP,
Wiggers realizava o pós-doutorado no Instituto de Física de São Carlos da
Universidade de São Paulo (IFSC-USP) quando, em 2014, teve a oportunidade de
estagiar no laboratório de Grünewald durante um ano.
No Reino Unido aprendeu
um conjunto de técnicas de microscopia eletrônica, tomografia e fluorescência
que foram usadas pelo grupo para desvendar o mecanismo de escape do vírus do
herpes.
Assim como todos os
demais vírus, o HSV-1 é um parasita celular. Para se reproduzir, precisa
infectar a célula-alvo e introduzir seu material genético em seu interior.
O vírus então passa a
controlar o metabolismo celular, inativando a maior parte dos genes e
valendo-se de substâncias existentes no meio intracelular para multiplicar seu
próprio material genético e fabricar capsídios, uma espécie de capa de
proteínas que recobre os ácidos nucleicos dos novos vírus gerados.
Terminado o processo de
reprodução, o patógeno original e suas cópias precisam sair do núcleo para
procurar novas células.
“Esse processo de saída
é crucial para o avanço da infecção, por isso dizemos que é o estágio mais
infectivo do ciclo de vida viral. Muitos vírus conseguem escapar pelos poros
nucleares, o que é impossível para o HSV-1 porque ele é muito grande”, disse
Wiggers.
Enquanto os poros
nucleares têm entre 39 e 40 nanômetros, contou a pesquisadora, o HSV-1 tem
cerca de 120 nanômetros. Um nanômetro corresponde a 1 bilionésimo do metro.
No artigo publicado em
novembro na Cell, o grupo de Grünewald descreve passo a passo o processo de
formação do complexo proteico que ajuda o HSV1 a escapar do núcleo celular –
conhecido como NEC (nuclear egress complex).
Já no artigo de
dezembro, os pesquisadores descrevem a estrutura cristalográfica do complexo
formado pelas proteínas, conhecimento fundamental para que se possa pensar no
desenvolvimento de inibidores.
“A estrutura dessas
duas proteínas é bem incomum e não se encaixa nas classificações já
existentes”, afirmou Wiggers.
A doença
De maneira geral, o
vírus HSV-1 está mais associado a casos de herpes labial, enquanto o HSV-2 ao
herpes genital.
Nos dois casos, a
infecção costuma ser recorrente, ou seja, vai e volta espontaneamente. Isso
porque o vírus se esconde dentro de células do sistema nervoso, o que dificulta
sua eliminação pelo sistema imune.
As recaídas,
normalmente, ocorrem em períodos de baixa imunidade, o que pode ser favorecido
por fatores como exposição solar intensa, estresse emocional, menstruação e
traumas.
Um em cada cinco
adultos é portador do HSV-2 e mais da metade da população tem o HSV-1. Porém,
muitos portadores não apresentam sintomas.
O artigo Structural
Basis of Vesicle Formation at the Inner Nuclear Membrane (doi: 10.1016/j.cell.2015.11.029)
pode ser lido aqui.
O artigo Crystal
Structure of the Herpesvirus Nuclear Egress Complex Provides Insights into
Inner Nuclear Membrane Remodeling (doi: 10.1016/j.celrep.2015.11.008) pode ser
lido aqui.
Fonte: Exame
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