
Fabricantes de automóveis como a Ford Motor e a Toyota Motor
deveriam considerar a chegada de empresas de tecnologia como o Google em seus setores como uma ameaça letal em vez de
uma oportunidade de crescimento, disse Adam Jonas, analista do Morgan
Stanley.
“Estamos falando do humano fora do volante, do fim da
propriedade privada, do fim do motor de combustão interna e do fim das
concessionárias de automóveis”, disse Jonas em uma conferência da Automotive
News na quarta-feira, em Detroit.
“Tirando isso, são negócios, como sempre”.
O Google poderá fechar parceria com uma empresa como a Ford em
breve, mas principalmente para conseguir o acesso ao conhecimento que a
fabricante de automóveis conquistou por ter milhões de carros nas ruas em todo
o mundo, disse o analista.
A Ford e o Google, pertencente à Alphabet, estão discutindo um
trabalho conjunto, inclusive uma joint venture, para produzir carros usando a
tecnologia da empresa do Vale do Silício, disse uma pessoa com conhecimento das
negociações no mês passado.
“Eles usariam a Ford como anfitrião e a devorariam
depois”, disse Jonas, que falou em uma apresentação na conferência e em uma
entrevista concedida no local.
“Existe todo esse papo de inovação”, disse Mark Fields,
CEO da Ford, a repórteres, após um discurso, em Detroit. “Estamos inovando a
nós mesmos. E estamos olhando para isso atualmente a partir de uma posição de
força em termos de saúde financeira do nosso negócio e dizendo ‘como
posicionamos a empresa para o sucesso no futuro?’”.
Johnny Luu, porta-voz do Google, preferiu não comentar as
declarações de Jonas, assim como Steve Curtis, porta-voz da Toyota.
Contra-ataque
Nem todas as fabricantes de automóveis estão buscando cooperação
em um mundo de veículos autônomos e compartilhamento de carros.
Carlos Ghosn, CEO da Nissan Motor Co., disse na terça-feira que a fabricante
combaterá o surgimento do compartilhamento de carros com mais veículos
conectados que os motoristas possam personalizar.
Ele minimizou o impacto que empresas de caronas como Uber
Technologies e Lyft provocarão sobre a economia do negócio automotivo depois
que a General Motors investiu US$ 500 milhões na segunda empresa.
“Não vamos facilitar essa tendência”, disse Ghosn, que
administra a Nissan e a Renault SA, em entrevista no Salão do Automóvel de
Detroit. “Vamos produzir carros muito mais sexy, muito mais atrativos e ver
como as pessoas reagem”.
Jonas disse que o problema básico para as fabricantes de
automóveis é que elas ainda estão vendendo carros e caminhonetes em vez dos
quilômetros que as pessoas trafegam, disse ele.
“Uma vez que você compra um carro, você o dirige, o
abastece e o mantém”, disse o analista. “E eles dizem ‘nos vemos em sete anos
para que possamos te espremer a venda de outro Corolla”.
Para piorar as coisas, a maioria dos carros é usada realmente
apenas 3 por cento do tempo e fica parada no estacionamento no restante, disse
Jonas.
Público cativo
Enquanto isso, o Google e a Apple estão interessados em um mercado
anual de US$ 14 trilhões que consiste não apenas em vender, realizar
manutenção, consertar e assegurar carros, mas também no tempo que os motoristas
ficam presos atrás do volante, segundo Jonas.
O Google quer usar esse tempo como uma oportunidade para injetar
dados, entretenimento e conectividade com a web em um espaço do qual os
motoristas não podem escapar, enquanto a Apple também quer vender hardware e
serviços, disse ele.
É por isso que uma empresa de caronas como o Uber poderá
conseguir, em alguns anos, atingir a receita anual de mercado de US$ 250
bilhões que a Toyota não conseguiu em sete décadas, disse ele.
Em declarações na mesma conferência em Detroit, na terça-feira,
John Krafcik, CEO da unidade de direção autônoma do Google, disse que entre os
objetivos da empresa para os carros autônomos estão a redução de acidentes e a
oferta de uma maior mobilidade para os mais velhos e para os deficientes, não o
aumento da receita com publicidade.
Fabricantes de automóveis como a Toyota têm tido uma reação lenta
ao que ele considera uma ameaça de empresas como o Google porque precisam
devotar muito tempo, esforço e dinheiro à administração de seus negócios de
carros tradicionais, disse Jonas.
“Elas estão lutando uma guerra em duas frentes”, disse
ele. “A coisa vai ficar realmente ruim quando chegar a próxima recessão”.
Fonte: Exame.
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